É só Greguol; e só!

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A arte é tão irresponsável que é capaz de comprimir as questões mais deflagradoras da humanidade em pequenas pinceladas. Assim, assuntos complexos ganham uma ótica quase infantil e não respondem questão alguma, mas abrem novas janelas de conceitos e possibilidades. O cientista tenta responder perguntas milenares; o filósofo reflete e busca soluções; já o artista — a este resta largar a bomba e sair de cena: explicando para confundir, confundindo para esclarecer, desorganizando para se organizar e organizando para desorganizar.

T. Greguol já nos defronta com um planeta Terra em caráter estilizado e encapsula páginas e páginas de teses filosofais em canções que encontram no pop seu abrigo mais eficaz. Suas mãos são mais rápidas que nossos olhos, e ele passa a nos confundir, esclarecer, organizar, desorganizar e fingir que é dor a dor que deveras sente; e só! Nada aqui importa — por isso tudo aqui é importante: é o holofote naquela sinapse descartada que continha pérolas reflexivas raras, trazendo o inutensílio necessário para a manutenção da alma.

Quando nos pergunta “Quem ensinou o que somos?”, Greguol não responde: deixa você tentando coçar essa pulga e o faz refletir sobre o quanto somos construções sociais, e que talvez pouco ou nada do que você é seja uma escolha sua. E, depois deste molde pronto do eu, só dá para ser o que se é; pois o poeta atesta: não dá para ser o que não se é, plantando uma miragem sintática pouco estabilizante. E não adianta suplicar por resposta: o artista já correu, deixando você com esse abacaxi existencial na mão; e só. — Mas, se o poeta chega a fingir a dor que de fato sente, ele pode ser o que não se é? — Não há resposta; o poeta correu, lembra?

O álbum E Só, décimo de Greguol, dá mais patas a essas pulgas e camufla filosofia fina em palavras palatáveis, porém escorregadias: como tratar uma reciclagem da vida invocando uma lógica cíclica cármica; falar de igualdade teórica em contraposição à diferença prática; abordar uma contemporaneidade que, movida a medo, passa a se arriscar menos, de maneira covarde e acrítica; expor o frenetismo obsessivo atual, em que pessoas se diluem pelo efeito pasteurizador da repetição. É complicado, mas está simples! Está confuso? Já já explicamos: o que isso significa para você? Paft! O poeta sumiu! No final, meu amigo, tanto faz. O metro é só uma medida: e só.

O universo está condensado nesse álbum de tiro rápido e certeiro, concentrando o existencialismo em rajadas de poemas alinhavados pelas melodias pervasivas de Lourenço Netto. Quarenta e cinco artistas se perfilam e ajudam a rechear esse universo. A resposta que não teremos se transformará numa pergunta interna que ruminaremos, sem perceber que o percurso já é mais enriquecedor que a resposta: e só!

Juscelino Filho
Cantor, compositor, escritor.

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