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Ouvi o disco inteiro e achei bem interessante. A primeira impressão que tive foi a de que ele conversa bastante com uma tradição da música experimental. Me lembrou algumas coisas do pós-punk, principalmente daquela turma do no wave de Nova York, do noise rock e de artistas que trabalham muito com experimentação.

Vieram à minha cabeça grupos como Mars, DNA, Gang of Four, Captain Beefheart, Pere Ubu, Swans, Teenage Jesus and the Jerks, Glenn Branca e Massacre, do Bill Laswell. Também lembrei de Sun Ra, por causa daquela barulheira jazzística experimental. Na última faixa, em alguns momentos, pensei em Threnody to the Victims of Hiroshima, do Penderecki, e também na banda Shub-Niggurath, mais pela atmosfera do que pela estrutura das músicas.

No contexto brasileiro, achei que a percussão e os batuques lembram alguma coisa da nossa música. Pensei em Nana Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Arrigo Barnabé, principalmente em Clara Crocodilo, Itamar Assumpção e Patife Band. Não estou dizendo que essas sejam referências diretas, só foram associações que me vieram enquanto eu ouvia.

A sensação mais forte que tive foi a de que existe bastante improvisação. Cada faixa parece um campo aberto de experimentação. Fiquei com a impressão de que você coordenou o trabalho de uma forma geral, estabeleceu alguns parâmetros, mas deixou os músicos seguirem as ideias que iam surgindo durante a gravação. Pelo menos foi isso que me pareceu. A primeira faixa, por exemplo, me deu uma sensação mais coletiva. Mas faço questão de deixar claro que isso é uma impressão totalmente subjetiva. Posso estar completamente errado.

A música que trabalha com respiros e sons não instrumentais leva essa sensação ainda mais longe. Ela parece usar qualquer som como elemento musical, o que me remete bastante à música de vanguarda.

As referências que citei têm relação entre si. Se você ouvir Mars, Swans da fase Filth, Captain Beefheart, Patife Band, Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal, Nana Vasconcelos e os outros artistas que mencionei, acho que dá para perceber um certo parentesco entre essas linguagens.

Agora, falando mais do meu gosto pessoal, eu normalmente prefiro músicas que tenham uma estrutura mais definida. Gosto quando o experimentalismo aparece como um tempero, um detalhe, um complemento da composição. Às vezes, quando a música é muito experimental, fico com a sensação de estar vendo o músico testar possibilidades do instrumento ou explorar sons naquele momento, mais do que ouvindo uma obra que já foi pensada como uma comunicação clara. Claro que existem exceções. O Hermeto Pascoal, por exemplo, muitas vezes faz justamente do experimento a própria mensagem.

Tenho a impressão de que esse tipo de música funciona muito como um happening, um manifesto daquele momento, uma experiência que acontece ali. Às vezes, dessa liberdade toda, surge uma estrutura muito interessante: um ritmo, uma melodia, um andamento ou uma combinação de notas que realmente dá liga. Esses momentos me chamam bastante a atenção.

Em outros momentos, porém, confesso que sinto uma certa autoindulgência, como se o músico estivesse mais interessado em explorar as próprias ideias do que em comunicar alguma coisa para quem está ouvindo. Isso me lembra um pouco certas propostas da arte contemporânea, como os ready-mades do Duchamp, em que a ideia acaba sendo tão importante quanto a própria obra.

Também acho que é uma linguagem voltada para um público bem específico, mais ligado às vanguardas desconstrutivas do século XX e à música experimental. Não sou um grande especialista nisso. Tive fases em que ouvi bastante desse repertório, conheço algumas coisas, mas não tenho uma relação tão profunda assim. Então tudo o que estou dizendo aqui deve ser entendido como uma impressão pessoal, construída a partir de uma audição e da minha experiência como ouvinte.

De qualquer forma, espero que essas observações tenham alguma utilidade para você. Não encaro isso como uma análise definitiva, apenas como uma leitura pessoal do que ouvi.

Joaquim Ghirotti

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