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O que me interessa em E SÓ, décimo primeiro álbum de T. Greguol, lançado em 2026, não é apenas a música, mas o dispositivo que a organiza. Há aqui uma política do encontro que é também uma política do luto. O coletivo se forma e se desfaz na mesma respiração, sem deixar instituição, sem cristalizar vínculos.

É o avesso exato do que a cultura do desempenho exige: que tudo persista, que tudo acumule, que toda colaboração se converta em rede, capital, legado. Greguol faz o contrário: ele deixa ir.

Nisso reside uma oniropolítica precisa, no sentido em que o sonho também funciona assim: convoca figurantes que nunca mais voltam, monta cenas que não se repetem, e o sujeito acorda sem poder reter nenhum dos rostos. E SÓ é um álbum que sonha a si mesmo.

O gesto se completa no arco entre o livro de 2020 e este disco de 2026. Antes de Saber Eu Também Não Sabia foi o registro de um ano em que o tempo desabou sobre todos nós; E SÓ é o que resta depois que o entulho foi retirado.

As canções são, como o próprio Greguol anuncia, “simples sobre assuntos complicados”. Essa simplicidade não é ingenuidade, mas precisão clínica. Quando Metro (100 cm) pergunta qual é a unidade de medida do humano e responde “o que chora”, ou quando Xipiclix diagnostica que “todo mundo tá com medo e, com medo, você topa tudo”, estamos diante de letras que operam como interpretações, no sentido analítico do termo.

A faixa final, E Só, letra e música do próprio Greguol, apenas com vozes da família, encerra o disco como se encerra uma sessão: em silêncio produtivo, sem resolução, com o sujeito um pouco mais inteiro por ter falado.

Christian Dunker
Psicanalista, professor.

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